Parece existir um consenso geral de que a dívida privada e o investimento de impacto andam de mãos dadas e que a colaboração entre os dois poderá acelerar a sua penetração.

Ao analisarmos as tendências no mercado de capitais global, uma das novidades mais interessantes é a presença cada vez maior do investimento de impacto não só nos mercados desenvolvidos, mas também nos emergentes. Apesar dessa relevância crescente, a maioria dos players do mercado ainda não entende exatamente o que é investimento de impacto.

A definição mais sucinta desse conceito é que o investimento de impacto busca investir em empresas e projetos que objetivam, de maneira simultânea e com o mesmo grau de relevância, retornos financeiros e impacto social.

O crescimento do investimento de impacto no mundo pode ser mensurado através de dados publicados em pesquisas realizadas pela GIIN (Global Impact Investing Network), uma organização sem fins lucrativos que busca aumentar a penetração e a eficiência dos investimentos de impacto ao redor do mundo. Segundo os dados de pesquisa da GIIN, baseados em informações coletadas entre 226 investidores no final de 2017, o volume total de bens alocados para investimento de impacto no mundo foi de US$228 bilhões, comparados a US$114 bilhões no final de 2016, segundo dados coletados entre 209 investidores.

A mesma pesquisa mostra que a dívida privada é um dos principais instrumentos utilizados pelos investidores nas suas estratégias de investimento de impacto. Em 2017, com base em dados do ano anterior, 59 investidores relataram ter aplicado US$38 bilhões globalmente em investimento de impacto através de dívida privada. Esse volume corresponde a 33% dos bens totais geridos pelo investimento de impacto.

A pesquisa focou em dois tipos de fundos: Fundos de Impacto de Dívida Privada (FPDP), que investem majoritariamente em bens localizados em mercados emergentes; e nos chamados Fundos de Empréstimo para o Desenvolvimento da Comunidade (FEDC), que investem somente nos Estados Unidos. Segundo a pesquisa, os FPDPs geraram um retorno médio anual de 2,6% desde 2012, enquanto os FEDC geraram 2,9% no mesmo período.

Assim como no segmento de dívida privada, quando focamos a nossa análise no Brasil e no resto da América Latina, constatamos que o crescimento do investimento de impacto tem sido mais lento do que nos mercados desenvolvidos.

Um estudo realizado em parceria entre a Latin America Venture Capital Association (LAVCA) e a Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) mostrou que em 2017, o volume de investimentos de impacto na América Latina foi de US$4,7 bilhões, administrado por 67 investidores. Dentre esses investidores, 22 estão nos Estados Unidos e 13 na Europa. Com base nesse mesmo estudo, no Brasil o volume alocado ao investimento de impacto foi de somente US$ 343 milhões, ou apenas 7% do total alocado na América Latina.

Apesar do volume baixo de investimentos de impacto no Brasil, é interessante notar que dentre os respondentes da pesquisa, 71% mencionaram ter investido através de instrumentos da dívida, dos quais os mais utilizados foram dívida conversível (83%), empréstimo tradicional (52%) e receita baseada em empréstimo (13%).

Com base nessas informações, podemos afirmar que os fundos de dívida privada no Brasil acabam tendo um impacto social importante através da maneira que operam, já que:

1. Uma grande quantidade dos recursos investidos pelos fundos de dívida privada brasileiros é alocada para empréstimos a pequenas e médias empresas (PMEs), que é um segmento com acesso limitado a financiamento de longo-prazo e custos acessíveis através de instituições financeiras tradicionais;

2. Estudos da SEBRAE indicam que no Brasil, as PMEs são responsáveis por 27% do PIB, 52% dos empregos formais e 40% dos salários pagos;

3. A estratégia de aumentar a oferta de crédito para esse segmento, de forma que essas empresas alcancem continuidade com rentabilidade, pode e deve ser considerada uma estratégia que combina retorno financeiro com impacto social.